sábado, 20 de agosto de 2011

Vinícius? Não

Lá com meus 15 anos e nada pra fazer em casa e toca o telefone. Aí tinha um povo que ligava para oferecer produtos. Muitas vezes eu até ficava escutando o que eles me ofereciam por pura falta do que fazer. O ócio favorece a sacanagem. A pessoa me ligava, eu enrolava e, quando eu percebia a empolgação, eu dava uma desculpa para não comprar o produto.

Às vezes não ofereciam produtos, mas pediam doações. Meus pais sempre me falavam que tinham pessoas que enganavam pedindo doações e não tinha nada a ver. Então eu ficava com mais receio. E eu treinava minha habilidade de dar desculpas. Treino avançado. Aquele pessoal é muito chato.

Em uma bela tarde quente, o telefone toca:

- Alô?
- Boa tarde! Estamos recolhendo doações e blábláblá...
- Desculpe, mas não posso. Vou viajar pra fora do Brasil e vou ficar um tempo fora...
- Ah, é mesmo? Que legal!

Ha! Ela caiu na conversa. E ela continuou:


- Pra onde o senhor vai viajar?
- Vou para Portugal.
- Mesmo? Você me manda um postal?
- Claro! Passa seu endereço.

Ela me disse o endereço. Mal ela sabia que eu tinha 15 anos e não tinha um videogame para ter algo melhor pra fazer. Ainda falei pra ela me ligar daqui 1 mês, pois seria tempo de eu retornar da minha "viagem". E não é que ela me ligou? Treinamento de Lábia Módulo II. Eu não tinha mesmo nada pra fazer. Ah, eu tinha que estudar, mas era muito chato.

Papo vai e vem, ela morava lá na casa do chapéu. Eu não dirigia ainda, então qualquer lugar era longe. Ela era mais velha. Já tinha uns 20 e poucos anos. Mesmo assim consegui me marcar de encontrar. Po! Eu em casa de bobeira e ainda iria sair com alguém? Tá bom então.

Naquela época, não tinha esse negócio de mandar foto, webcam... Era na raça, na unha, nos búzios, no tarô e na mandinga. Eu marquei e torci. Vai que a sorte tinha me ligado, né? Vai que ela tinhas todos os dentes, cabelo bom e uma aparência normal.

Marcamos na entrada do Shopping Metrô Tatuapé, o "point" da meninada. Eu estaria com uma celular cinza (ultra moderno de tela verde) na entrada do Shopping de quem vinha pelo metrô. Cheguei lá e dei umas voltinhas. Pra lá e pra cá, e nada de ninguém com as características dela. Não lembro o que ela tinha me falado, mas qualquer orangotango vesgo vai falar "moreno sensual de olhar misterioso".

- Oi, seu nome é Fulana?
- Não.
- Tá bom. Obrigado.

OK, paguei um mico. Mas era gatinha, arrisquei alto.

Cansei de esperar, encostei no parapeito e comecei a mexer no meu celular para passar o tempo. Deu uns 10 minutos, um vulto veio em minha direção:

-Vinícius?

Era ela. Eu estava com a cabeça baixa e analisei a Fulana de baixo para cima. Sapato vermelho, calça vermelha, uma blusa vemelha, corpo magro, pescoço... barba?... Eita! Era cavanhaque. Minha reação foi rápida, ao levantar a cabeça, eu disse "NÃO" e abaixei a cabeça.

Nem reparei que ela estava toda de vermelho como um pimentão. Mas de cabeça baixa, pude ver ela andando de salto como um pato. Meu! o que eu estava fazendo ali? Desliguei o celular e fui assistir a um filme. Era o máximo que eu poderia aproveitar.

Esperanças com ligações? Nem a pau.

Ôôô, Canário!

Um comentário: